Estresse em adolescentes - Como ajudar?




Com um início de ano com a maioria das escolas 100% presenciais depois de 2 anos de aulas online ou hibridas, muitos jovens estão sentindo o peso das exigências acadêmicas e sociais, que há um bom tempo não sentiam. Durante o seu desenvolvimento o adolescente passa por diversas situações de tensão que podem muitas vezes estar além da sua capacidade de lidar com elas, contudo os recentes eventos podem estar maximizando o problema.


A pandemia em si, foi um evento altamente estressante para os adolescentes, basta lembrar que essa é uma fase em que as relações grupais tem papel importantíssimo, assim como a experimentação e a descoberta, o que foi de certa forma retirado dos jovens nesse período.


Um primeiro ponto que precisamos ter claro é que o estresse não é uma doença, o que precisamos manter no radar é sempre a sua duração, frequência e intensidade. O estresse é uma resposta do nosso organismo a situações percebidas como desafiadoras, quando ocorre, temos a liberação do cortisol, um hormônio importante que nos prepara para lidar com a situação que desencadeou o evento estressor.


Psicólogos concordam que, enquanto a versão crônica ou traumática pode ser causadora de problemas, a natural – como a que ocorre durante uma avaliação – é parte normal e saudável da vida. Em um artigo de 2013 no Journal of Personality and Social Psychology, os pesquisadores Alia J. Crum, Peter Salovey e Shawn Achor identificaram que a resposta do estresse humano, por si só, pode colocar "o cérebro e o corpo em uma posição ideal para a ação. Podemos comparar as exigências escolares, por exemplo, com um esquema de treinamento físico. Sabemos que se queremos ter uma boa definição, só tem um jeito, levantar pesos até chegar ao ponto de desconforto, o processo de desenvolvimento acadêmico, funciona de forma parecida, precisamos ser expostos a um nível de desafio, que nos impulsione a crescer. Novas imposições exigem crescimento, e o crescimento é gerador de estresse.


Fatores que geram estresse no adolescente


Agora, claro que alguns fatores podem intensificar o problema, um dos principais é a própria sociedade atual, vivemos em um mundo que prega o sucesso a todo custo e resultados imediatos, o que se soma com todas as mudanças sociais e tecnológicas que vivenciamos nos últimos anos, eventos que exigem uma alta capacidade para se reorganizar e se adaptar, o que pode gerar um desequilíbrio para os mais vulneraveis.


Outro fator são os estilos parentais e dos professores, isso porque pais e professores estressados são um exemplo negativo de como lidar com os problemas da vida. Justamente por estarem vivenciando intensas mudanças e situações estressantes, os adolescentes precisam de modelos adequados para aprenderem a lidar com tais eventos.


Quando falamos de estilo parental, falamos principalmente de três tipos que influenciam no aumento do estresse adolescente: um primeiro deles é o estilo de superproteção ou permissivo, que retira do jovem a oportunidade de aprender a lidar com frustrações, pressões e dificuldades normais da vida, o segundo é o estilo negligente, pais que retiram abruptamente a proteção na adolescência e deixam o jovem sozinho com seus novos desafios, com a ideia de que "ah! eles já são grandes, já dão conta de si”. O terceiro estilo são os autoritários, pais que impõe regras rigidas e extremas, com excessivas criticas, conflitos contantes ou regras não claras, acabam não dando espaço para que o jovem desenvolva autonomia. É importante lembrar que nessa fase eles passam por um continuum de desenvolvimento, de fato não são mais crianças, então precisam de maior autonomia e liberdade, mas ainda não são adultos, ou seja, ainda necessitam que os pais estejam ali ajudando colaborativamente (ao invés de apenas dizendo o que precisam fazer), para desenvolver habilidades, resolver seus problemas e tomar boas decisões. Um adolescente que for excessivamente poupado não estará preparado para o mundo, enquanto que um adolescente superexposto a altos níveis de estresse, sem rede de apoio pode não dar conta e desenvolver psicopatologias como ansiedade e depressão.


Estresse em adolescentes: estudo com escolares de uma cidade do sul do Brasil


Em pesquisa realizada por Lígia Braun Schermann e colaboradores em 2014. Identificou-se os principais gatilhos percebidos como desencadeadores de estresse pelos adolescentes, sendo eles:


  • Eventos de caráter relacionais (como ter problemas de relacionamento com os seus pares e sentir-se desrespeitado) As relações com os amigos ocupam um lugar de destaque na vida dos adolescentes, e quando estas provocam dificuldades (brigas ou problemas com os amigos), tornam-se poderosas fontes de estresse.


  • Emocionais (como ter preocupações emocionais e com a própria imagem), foram percebidos como fortes estressores. As preocupações emocionais, os sentimentos negativos e a preocupação com a própria imagem correspondem às consequências emocionais desencadeadas, provavelmente, pelas relações interpessoais. Entre estas, há a necessidade de ser aceito pelo grupo de amigos, a necessidade de se enquadrar nos padrões de beleza (para ser aceito) e a frustração por ter que seguir regras estabelecidas pelos pais ou pelos responsáveis.


  • Familiares: os dados obtidos no presente estudo apontam o ambiente familiar como importante modulador do nível de estresse dos adolescentes. Há maior prevalência de estresse em jovens que julgam o ambiente familiar, o relacionamento com o pai e o relacionamento com a mãe como "regular/ruim", comparativamente aqueles que os julgam "bom".


Como o estresse afeta o cérebro adolescente?


Outro ponto importante é que o estresse afetará o cérebro adolescente de uma forma diferente do adulto e da criança, todo o sistema que prepara o nosso corpo para lidar com o estresse não está completamente desenvolvido nesse período, as áreas cerebrais que em um adulto normal trabalham para conter ou lidar com eventos estressantes, no adolescente não estão completamente formadas, isso significa que a resposta vem de forma muito mais intensa. Outra particularidade, é que nessa fase os níveis do hormônio cortisol estão mais elevados, consequentemente qualquer evento que seja gatilho para o estresse, será intensificado.


Outras fontes de estresse na adolescência


Fonte externas:


  • Responsabilidade excessiva;

  • Mudanças frequentes ou intensas;

  • Excesso de atividades;

  • Rejeição pelos pares/amigos;

  • Morte na família;

  • Separação dos pais ou brigas frequentes;

  • Vestibular e escolha profissional;

  • Conflitos em relacionamentos amorosos;

  • Pais e professores estressados.


Já as fontes internas de estresse estão relacionadas a características pessoais do adolescente, suas crenças e forma de interpretar o mundo, além de problemas já existentes, tais como:


  • Ansiedade;

  • Timidez;

  • Baixa autoestima;

  • Insegurança;

  • Desejo de agradar;

  • Medo do fracasso;

  • Preocupação com mudanças no corpo;

  • Sentimento de injustiça – dificuldade e aceitar responsabilidade pelos seus erros;

  • Medo da rejeição social;

  • Medo de ser ridicularizado ou não pertencer ao grupo;

  • Altas expectativas e autocobrança.


Manejo do estresse na adolescência.


Existem duas principais formas de ajudar o jovem a lidar com o estresse, uma é a estratégia preventiva (quando ainda não há altos níveis de estresse) e a outra é a terapêutica (quando já existe em excesso). Na preventiva os pais, professores e adultos podem ajudar quando oferecem um modelo adequado de como resolver problema, além disso, pais que permitem que os filhos vivenciem desafios seguros, estão possibilitando que esses jovens desenvolvam habilidades importantes para lidar com a frustração e outras situações difíceis. Já o apoio terapêutico deve ocorrer com uma rede profissional, envolvendo médicos e psicólogos que ajudarão esse jovem na regulação das suas emoções.


Dicas para ajudar o adolescente estressado:


- Identificar a fonte de estresse: o que mudou na vida dele recentemente ou o que esta para acontecer que poderia estressá-lo?


- Possibilitar que o jovem converse com alguém que saiba ouvi-lo de modo acolhedor e empático sem críticas ou cobranças excessivas. Buscando soluções para o problema.



Reflexão final


E para finalizar deixo uma reflexão, não tem como pensarmos que tudo que já vinha acontecendo antes, o que aconteceu durante, e todos os "reaprendizados" do "pós-pandemia", não tenha trazido impactos na saúde mental desses adolescentes, precisamos nos dedicar em escutar esses jovens e entender como eles estão se sentindo. E sim, eles querem ser ouvidos, muitas vezes se isolam pela postura crítica que são abordados, mas como dizia Winnicot:"sintomas são pedidos de socorro". Por fim, é importante ter em mente que muitos terão dificuldades em verbalizar o que sentem, sendo preciso estar atento a sinais corporais, não verbais, nas atitudes e mudanças de comportamento que possam demonstrar que temos diante de nós um jovem em sofrimento.




Referências


Tricoli, V. A. C. (2010). Estresse na adolescência: Problema e solução: A possibilidade de jovens estresseados se tornarem adultos saudáveis. São Paulo: Casa do Psicólogo.


https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2018/10/01/como-ajudar-adolescentes-a-enfrentar-o-estresse.htm?aff_source=56d95533a8284936a374e3a6da3d7996


http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-03942014000100012


https://secure.unisagrado.edu.br/static/biblioteca/salusvita/salusvita_v34_n1_2015_art_07.pdf-


https://www.glianeurociencia.com.br/post/quarentena-a-escola-n%C3%A3o-deve-ser-mais-uma-fonte-de-estresse


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